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Livros ao sol

Martha Medeiros

Pesquisas garantem que o brasileiro está lendo mais, bem mais, mas parece que ainda temos receio de tirar o livro de dentro de casa

Quem vai a Paris pela primeira vez, ou pela segunda vez, terceira, décima vez, nunca deixa de reparar no intenso hábito de leitura entre os moradores da cidade. Se você for a um parque, encontrará os parisienses deitados na grama ou atirados pelos bancos, lendo. Se for a um café, encontrará dezenas de homens e mulheres de idades variadas, lendo. Se entrar num metrô, muitos dos passageiros estarão com um livro nas mãos, até mesmo aqueles que viajam em pé. É uma visão celestial e um vício que compartilho: quando não estou fazendo nada, estou lendo.

De Paris para Punta del Este, lugar de gente descolada, festiva, alegre. O que vemos na beira da praia? Muitos uruguaios, argentinos e chilenos lendo. Ao contrário do que possa parecer, são normais. Também entram n’água, jogam vôlei, surfam, batem papo como os amigos, mas consideram o livro um acessório de verão tão essencial quanto os óculos escuros e o filtro solar, e quando pinta um intervalinho entre uma paquera e um clericot, devoram algumas páginas ali mesmo, na areia.

De Punta para nosso valoroso litoral. Um sorveteiro outro dia ficou boquiaberto com o que testemunhou: uma garota de 11 anos sentada à beira-mar com um livro no colo. Uma criança absolutamente como as outras, de biquíni, raquetes de frescobol a postos, cercada de amigas e topando todas as brincadeiras propostas, mas, de vez em quando, voltava para baixo do guarda-sol e lia um pouquinho, de tão bom que estava aquele seu Harry Potter. O sorveteiro perdeu o rumo de casa, ficou abismado, não parava de dizer que era uma cena rara. Por estas bandas é raro mesmo, seu sorveteiro, e é uma pena que assim seja.

Pesquisas revelam que o brasileiro está lendo mais. Porém ainda temos reserva em tirar o livro de dentro de casa. Quando lemos, lemos na cama, na rede, no sofá da sala, mas pegar o livro e jogá-lo na mochila para nos acompanhar aos bares, ônibus, praias e parques é uma ideia que ainda não nos ocorre com frequência.

Estou saindo de férias, vou passar uma temporada à beira-mar, e vou levar uma turma junto. Nabokov, Fausto Wolff, David Lodge, Clarice Lispector, Antonio Tabucchi, Somerset Maugham. Adoro fazer nada, desde que em muito boa companhia.

Então até março. E lembre-se: nossos livros também merecem tirar férias das quatro paredes e pegar uma praia.


Domingo, 30 de janeiro de 2005.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.